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sexta-feira, 4 de maio de 2018

IL PALIO, UMA FESTA MEDIEVAL

Não bastasse a riqueza cultural em que se materializa em todas as modalidades artísticas, Siena, na Toscana italiana, se notabiliza pela realização do tradicional “Palio”. E nós tivemos a fortuna de estar em seus domínios exatamente no período de realização de sua comemoração. Entre 2 de julho (Palio de Nossa Senhora de Provenzano) e 16 de agosto (Palio da Assunção), Siena imerge numa total catarse. O Palio vem a ser a sublimação, a essência do autêntico sentimento toscano. O ano “contradaiolo” (contrada é o bairro da cidade) se inicia em 1º de dezembro com a festa de Santo Ansano, patrono da cidade, e detona na primavera com o sorteio dos dez bairros (contrade) que participarão da corrida do 2 de jullho. São 17 bairros contidos entre as muralhas. Cada qual concentrando a ebulição social, como se fôra um pequeno povoado, inclusive com a sua própria igreja e correspondentes celebrações. Sim, porque o Palio resulta em se constituir, ao lado de um desfile histórico, numa corrida no lombo de cavalos (sem sela), cada qual com o seu fantino (jóquei) representando o bairro respectivo.
Desde fins de abril até metade de setembro, cada bairro celebra a festa do seu patrono. E Siena transmuda-se numa festa só, com os jovens nas suas vestimentas históricas, repicando os seus tambores e fazendo flamejar em evoluções ritimadas coloridas bandeiras representativas da “contrada”.
Na forma atual, nasceu, em verdade, em 1533, conquanto os seus primórdios antecedam a séculos. Para se entender o Palio, há que se estar, pelo menos, quatro dias antes na Piazza del Campo, quando são eleitos os dez cavalos apresentados por criadores e proprietários, simultaneamente ao sorteio que vincula cada cavalo aos 10 respectivos bairros que irão competir.
A ação seguinte é a condução do cavalo pelo “barbareschi” (cavalariços) ao estábulo do bairro. Curioso é que, escolhidos os ginetes – que têm a fama de serem corruptíveis e traidores – designa-se uma espécie de agente de cautela, verdadeiro anjo da guarda contra as possiveis investidas de corrupção pelos outros bairros. As provas e as jornadas de paixão prosseguem entre cantos, sons e o desfraldar das bandeiras. Nas ruas das contradas, nos dias festivos, as mesas alongadas acolhem a bela e farta culinária senesa.
Todos os domingos, entre 2 de julho e 25 de agosto realizam-se manifestações. Mas é nesses dois dias, sobretudo no dia da Assunção de Nossa Senhora, que a “loucura” toma conta de Siena. A Piazza del Campo tranforma-se, literalmente, num hipódromo. Nos limites dela é instalada uma raia para a corrida, com piso de terra e tudo. O interior da praça é reservado para o povão que, desde as primeiras horas da manhã, comprime-se numa multidão tão agitada quanto barulhenta. Em torno da raia, arquibancadas são instaladas e vendidas a altos preços. Nos prédios em redor da praça, as janelas e balcões são comercializados a preço de ouro. Não fica um centímetro livre.
Eu e Teresa, na condição de jornalistas credenciados, tivemos o privilégio de ocupar espaço bem posicionado. Na parte da manhã, como preparação, cavalo e “fantino” são levados à igreja da paróquia onde são benzidos pelo pároco. Em torno das 16hs00 inicia-se o cortejo histórico com todas as 17 “contradas” representadas nas suas vestimentas medievais em cores correspondentes e empunhando os seus escudos, embaladas pelo rítmo cadenciado dos seus tambores. Ao fim delas, o simbólico pálio que encarna Nossa Senhora. Enquanto dão a volta na praça, os grupos de jovens exibem as “sbandierati” lançando bem alto em evoluções precisas as bandeiras do seu bairro.
Uma observação oportuna é que cada “contrada” tem a sua denominação, a sua paróquia, o seu padroeiro, as suas cores, a sua bandeira, o seu escudo, o seu simbolo e o seu hino próprios.
Fim do que, posicionam-se os dez cavalos montados ao lombo pelos “fantinos”. Enquanto tomam posição para a largada, o povão entra em ebulição, cada grupo cantando o hino do seu bairro. Dada a largada, a vibração alcança uma intensidade incrível. Na corrida, tudo vale. Derrubar o adversário, promovendo todos os meios para impedir-lhe a vantagem. Não são poucos os espectadores que, espremidos pela massa humana comprimida, como também embebidos pelas virtudes etílicas do saboroso vinho que corre à solta desde as primeiras horas da manhã, são retirados de emergência para socorros médicos.
O êxtase, no entanto, é atingido quando, vencida a distância determinada, o primeiro cavalo transpõe a linha de chegada. O povão rompe os limites e invade a pista aos berros alucinantes (vale entender que, àquela altura, ainda mais movido pelo bom vinho italiano), cantando o hino da “contrada” vencedora, brandindo suas bandeiras, e rumando, no mesmo tempo, com cavalo e “fantino” à frente, pelas principais ruas, até a catedral, onde entram com cavalo e tudo, na mesma algazarra, mas disciplinadamente, fazendo a volta pelo altar-mór até retornar à rua. Dali, seguem em igual alucinação até o bairro vencedor, onde a mesa farta e o vinho que jorra generosamente nas ruas principais já estão disponíveis. E a festa é prolongada noite afora.

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