SISTEMA DE COTAS - HIPOCRISIA
Como foi amplamente noticiado, na semana passada a Câmara dos Deputados aprovou o projeto de lei que reserva 20% das vagas em concursos públicos da administração direta e indireta da União para candidatos negros. Se aprovada no Senado e sancionada a Lei pela Presidente da República, a reserva vai durar dez anos. Na votação da Câmara, houve 314 votos favoráveis, 36 contrários e seis abstenções. Fico cá a pensar, eu, como os meus filhos, moreno e que me considero “marrom glacê”, será justa a medida a favor dos negros. Não seria discriminatória, tendo em vista o Artigo 5º da Constituição da República que, com lucidez, afirma: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade...”? Entendemos a preocupação de se oferecer oportunidades a todos nós que não temos a pele alva. É fato inconteste que, no duro, no duro, nunca houve “libertação dos escravos”. A abertura a partir do século XIX, pressionada, foi uma troca, até venda, a favor dos Senhores donos das terras e dos escravos. Libertaram os negros mas não lhes deram condições plenas de sobrevivência. Ainda hoje a liberdade total, completa, consciente não atingiu a raça. A grande maioria vive em péssimas condições, sem um lar digno e um trabalho reconhecido. Os filhos não têm a mínima condição nem de saúde nem de educação. Poucos, muito poucos são os negros que atingem posição de destaque. Entendo que tudo isto é a mais pura verdade, mão não leis e normas, muitas das quais eleitoreiras, que resolverão o assunto, como esta que está em tramitação no Congresso. O que o povo brasileiro precisa – e a maioria é tida como negra – é de uma escola pública de qualidade e que ofereça real oportunidade a que todos que a frequentem se sintam orgulhosos com os ensinamentos recebidos, com o tratamento que lhes é dispensado. Uma escola com professores motivados, vocacionados e reconhecidos, com oportunidades de cada vez mais melhorarem os seus currículos e que sejam remunerados condignamente. Antes disto, porém, é que tenham moradia digna para uma pessoa humana, que tenham efetivo sistema de saúde e segurança à disposição. Portanto e finalmente, não são leis como a que está tramitando que melhorarão a vida dos negros. Outros são os caminhos para que tenhamos a verdadeira “libertação dos escravos”. Somos conscientes de que o que se deve seguir é longo e repleto de obstáculos dificílimos, pois o preconceito racial está vivo, embora camuflado. À propósito desta disfarçada hipocrisia racial que pulula na sociedade brasileira, o Ministro Joaquim Barbosa, presidente do STF, uma agulha no imenso palheiros dos negros vencedores (aí não incluímos os sortudos e talentosos do futebol e da música), em final de entrevista recente na Globo News, com fina ironia perguntou ao jornalista se ele sabia de alguém (rico) que convidasse um conhecido seu, negro, para frequentar a sua casa...
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